Por Anaís Cordeiro
Quando estive acompanhando as negociações do Programa de Trabalho sobre Transição Justa (JTWP) da UNFCCC na COP 30, em Belém, em novembro do ano passado, confesso que, apesar do cenário de enfraquecimento do multilateralismo, senti também pontadas de esperança. Isso porque, mesmo diante de longas discussões entre as partes sobre as minúcias do texto, o lado mais social do debate voltava à mesa com certa frequência, algo que eu não esperava.
Eu me surpreendia sempre que, sem muitos rodeios (o que não é comum na linguagem diplomática), as partes falavam sobre proteção social, erradicação da pobreza, proteção aos trabalhadores, promoção do diálogo social, direitos trabalhistas e trabalho digno. Discutia-se, inclusive, como o Mecanismo de Ação no âmbito do Programa de Trabalho sobre Transição Justa, que foi criado na Convenção, poderia servir como uma oportunidade concreta para fortalecer o diálogo social, tão necessário e, muitas vezes, adiado na política internacional.
Essas falas não vinham de representantes da sociedade civil, mas de negociadores que representam países e blocos. Em sua maioria, países do Sul Global, mas também havia vozes do Norte Global.
Passados quatro meses desde a COP 30, a presidência brasileira segue articulando, em paralelo às negociações oficiais, o chamado Mapa do Caminho para Longe dos Combustíveis Fósseis. Atualmente, a presidência brasileira da COP30 está recebendo contribuições de países e da sociedade civil para a construção dos mapas do caminho sobre desmatamento e afastamento dos combustíveis fósseis. O presidente Lula também encomendou em dezembro de 2025, diretrizes para orientar o Brasil na redução gradual da dependência desses combustíveis. Em abril, a Colômbia sediará, em Santa Marta, a Primeira Conferência Internacional para a Eliminação dos Combustíveis Fósseis.
Sobre essa conferência, a ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, Irene Vélez-Torres, afirmou, durante o webinário “Qual é o papel dos países e da cooperação multilateral no roteiro global?”, organizado pelo Observatório do Clima, que há a intenção de criar um espaço para discutir abertamente a eliminação dos combustíveis fósseis, um espaço honesto, onde todas as cartas possam ser colocadas sobre a mesa. Segundo ela, há o desejo de avançar essa agenda e garantir sua continuidade.
Enquanto esses “mapas do caminho” vão sendo construídos em espaços formais e informais da política internacional, sigo refletindo sobre a importância de lembrarmos, coletivamente, que a Transição Justa é, fundamentalmente, sobre pessoas. Faço essa reflexão porque, quatro meses depois de ouvir tantas menções à justiça, à centralidade das pessoas e à proteção social nas salas de negociação, nos encontramos em um cenário de ainda maior instabilidade política global.
Nesse contexto, parece cada vez mais fácil recorrer a discursos menos ambiciosos, ancorados em termos mais palatáveis ao mercado, como descarbonização, estabilidade econômica e uma transição “segura e ordenada”. No entanto, é preciso lembrar que chegamos até aqui, a esse cenário de instabilidade e conflitos, em grande parte como resultado de uma economia extrativista que precisa, com urgência, ser transformada.
Nossa transição exige mais do que ajustes graduais: ela demanda ruptura. E, sobretudo, um compromisso muito mais profundo com a dimensão da “justiça” que já está inscrita no próprio conceito de Transição Justa.
No mesmo evento em que esteve a ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, participou também o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, que falou sobre o grande desafio de criar união quando o assunto é combustíveis fósseis. Ele exemplificou essa complexidade ao destacar que o Sul Global não pode ser visto como um bloco homogêneo, mas como um conjunto diverso de países que, embora convirjam em alguns pontos, também apresentam divergências importantes. Construir consensos, nesse cenário, tem se mostrado uma tarefa árdua.
Mas, se no contexto internacional o consenso ainda orienta as decisões, ele está longe de refletir a realidade de quem vive e constrói a transição nos territórios. Para negociadores e partes, a ausência de consenso pode ser um entrave, para quem está na linha de frente das lutas sociais e ambientais, a diversidade de caminhos é um dado concreto.
Isso significa que, mesmo com esforços para construir soluções globais, não haverá uma única resposta ou um único modelo de transição. E talvez isso não seja um problema, pelo contrário. Essa pluralidade pode ser justamente o que permite que diferentes realidades sejam contempladas, desde que não sirva como justificativa para a manutenção das mesmas estruturas desiguais sob novas roupagens.
O risco está em usar a complexidade como desculpa para o imobilismo ou para o protecionismo de sistemas que já demonstraram seus limites. A oportunidade, por outro lado, está em reconhecer essa diversidade como ponto de partida para construir caminhos que coloquem, de fato, as pessoas no centro.
Artigo escrito por Anaís Cordeiro, nascida e criada na Amazônia acreana, é mestre em Estudos Internacionais para a Paz pela Universidade Soka e bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal do Acre (UFAC). Pesquisadora e educadora na área de Estudos da Paz. Atua como gestora de Projetos do Comitê Chico Mendes e Coordenadora de Campanhas e Ações do Comitê COP30.



