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A Amazônia e as juventudes merecem ser o centro do debate climático global

Por João Leão

O Dia de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas celebrado no dia 16 de março, representa mais que uma data simbólica no calendário ambiental, trata-se de uma reflexão coletiva sobre os impactos das ações humanas sobre o planeta e resposta às transformações climáticas. Em um contexto marcado pelo aumento das temperaturas globais, eventos climáticos extremos e crises socioambientais cada vez mais frequentes, a conscientização se torna uma ferramenta indispensável para mobilizar a sociedade. Abre-se espaço nesse ínterim para centralizar o debate a partir da Amazônia, entendendo que a região desempenha papel fundamental na regulação do clima global e uma dimensão territorial exorbitante.

Nas últimas décadas, o debate sobre o clima deixou de ser restrito à comunidade científica e acadêmica e passou a ocupar espaço central nas agendas políticas, econômicas e sociais. Os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) apontam que o aquecimento global está fundamentalmente relacionado às atividades humanas, processos que têm provocado alterações profundas nos sistemas naturais, afetando ciclos hidrológicos, biodiversidade e a estabilidade de diversos ecossistemas, sendo a nossa responsabilidade colocada em pauta.

Nesse cenário, a Amazônia atua como um importante regulador climático, contribuindo para o equilíbrio dos ciclos hidrológicos, influenciando nos regimes de chuva em diversas regiões, tendo esse equilíbrio ameaçado por processos intensos de desmatamento, expansão da fronteira agrícola, mineração e queimadas. Os efeitos são devastadores e são perceptíveis em diferentes regiões, secas prolongadas, enchentes intensas e ondas de calor cada vez mais frequentes, revelando a vulnerabilidade dos territórios diante da crise climática.

Discutir as mudanças climáticas sem considerar a Amazônia e a população que aqui habita significa ignorar uma das peças-chave do jogo climático do planeta. Apesar de os efeitos das mudanças climáticas extrapolarem a região, na Amazônia os significados são intensos e vivenciados cotidianamente nos territórios. 

Em pesquisa realizada no ano de 2025 com 667 jovens da Amazônia Legal, o Instituto COJOVEM identificou que 59,52% dos participantes estão intensamente preocupados com as questões ambientais em sua região. Entre as respostas, 24,88% dos jovens consideram-se “bastante” preocupados e 13,43% “moderadamente”, apresentando que a crise climática não é percebida apenas como um debate distante ou abstrato, para essas juventudes, mas trata-se de uma realidade concreta, vivenciada no cotidiano dos territórios, indicando uma consciência ambiental presente entre os jovens da região 

Além de vivenciar tais preocupações em seus territórios, essa juventude se vê à mercê de problemas socioambientais de caráter urgente que atravessam o cotidiano, tendo o desmatamento (32,53%), as queimadas e fumaças (19,49%), os eventos climáticos (17,84%), a contaminação (16,64%) e as questões humanas (13,49%) como os mais urgentes na Amazônia.

Somado a isso, 73,31% dos jovens percebem que a cobertura vegetal tem diminuído nas cidades e territórios em que vivem, evidenciando que as transformações ambientais não são apenas dados estatísticos ou projeções científicas, mas realidades concretas compartilhadas socialmente.

Quando os jovens apontam o desmatamento, as queimadas, os eventos climáticos extremos e a contaminação ambiental como os principais problemas, os dados demonstram que a crise climática está profundamente conectada com os conflitos territoriais e os modelos de exploração econômica da Amazônia. Não se trata apenas de mudanças climáticas globais, mas de processos locais de degradação ambiental que impactam diretamente a vida das comunidades.

Esses dados revelam não apenas a percepção ambiental das juventudes da região, mas indicam um sentimento coletivo de alerta diante das mudanças que vêm ocorrendo no território. A preocupação demonstrada pelos jovens expressa uma consciência crescente sobre a importância da preservação da Amazônia e sobre os riscos que o avanço do desmatamento e da degradação ambiental representam para o futuro da região e do próprio planeta.

Torna-se evidente que o debate climático precisa reconhecer a Amazônia não apenas como um espaço geográfico estratégico, mas como um território vivo, habitado por populações que historicamente desenvolvem formas de relação em equilíbrio com a floresta. Povos indígenas, comunidades ribeirinhas, extrativistas e camponeses possuem conhecimentos e práticas fundamentais para a construção de alternativas sustentáveis.

O dia de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas deve ser compreendido como um chamado à ação coletiva. Mais do que reconhecer a importância da Amazônia, apresentar dados e apontar os usos e abusos da floresta, é necessário fortalecer políticas públicas de proteção ambiental, valorizar as comunidades locais e promover modelos de desenvolvimento que respeitem os limites da floresta.

Colocar a Amazônia no centro do debate climático global não é apenas uma escolha política, mas uma necessidade urgente diante da crise ambiental que atravessa o nosso século. Proteger a Amazônia significa proteger a estabilidade climática do planeta e garantir condições de vida digna para as gerações presentes e futuras.

Artigo escrito por João Leão Professor, geógrafo e pesquisador amazônida nascido e criado no bairro da Sacramenta em Belém. Graduado e mestre em Geografia pela Universidade do Estado do Pará (UEPA) e Doutorando em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catariana (UFSC).  Membro do Laboratório de Estudos do Espaço Rural (LabRural/UFSC), do Grupo de Pesquisa Territorialização Camponesa na Amazônia (GPTECA) e Pesquisador do Instituto COJOVEM.

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