Por Anaís Cordeiro
Posso ser suspeita para falar, já que os Estudos da Paz são a minha área de pesquisa, mas acredito que a “paz” ocupe a segunda posição no ranking de pretextos utilizados para promover a violência. Quem deve ocupar a primeira posição é a “fé”.
A invasão dos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, à Venezuela, mais uma vez evidencia como o discurso da paz e da estabilidade internacional pode ser mobilizado para sustentar práticas históricas de dominação imperialista. O mundo, a América Latina e a Amazônia conhecem bem esse movimento.
Quando a paz entra nas nossas conversas, comumente ela é utilizada para descrever um estado de espírito de tranquilidade e calmaria ou, então, serve como subterfúgio para a realização de ações militares, processos de expansão territorial e intervenções armadas. No entanto, nenhum desses dois aspectos faz justiça ao que é a paz em profundidade e ao que ela pode proporcionar. O que muitas vezes chamamos de paz é, na verdade, controle.
A verdadeira paz provoca movimento, mudanças estruturais, justiça, dignidade e escuta real, mas não o domínio. Em especial quando há a instrumentalização da paz em prol da segurança e da estabilidade, tende se a produzir exatamente o oposto do que se anuncia, aprofundando ciclos de violência, desconfiança e instabilidade.
A chamada paz positiva vai além da simples ausência de guerra. Ela pressupõe justiça social, respeito aos direitos humanos, autodeterminação dos povos e a construção de relações baseadas na cooperação e no diálogo. Nesse sentido, ações de agressão ou dominação, ainda que travestidas de missões pacificadoras, minam as bases necessárias para uma paz duradoura, pois reforçam desigualdades, silenciam vozes locais e normalizam o uso da força como instrumento legítimo de resolução de conflitos.
A ideia de que paz é apenas serenidade, além de equivocada, também pode ser perversa. Paz não é passividade. O conflito existe em processos de paz porque, muitas vezes, é necessário que haja desconforto, o enfrentamento das consequências do passado, o rompimento do silenciamento e o escancaramento das contradições, para que se estabeleça um ambiente favorável à cura dos traumas causados pelas violências.
A narrativa eurocêntrica da história da humanidade pouco nos permite ter contato com processos de construção da paz que coloquem os nossos povos como protagonistas dessa paz positiva, indissociável da luta por direitos. Muitas vezes, lideranças que desafiam estruturas injustas e dedicam suas vidas à construção da paz são rotuladas como baderneiras, rebeldes, raivosas e violentas. No entanto, “paz” e “luta” não são opostas. Elas são e devem ser companheiras.
Símbolos e reconhecimentos nacionais e internacionais ainda não conseguem alcançar a grandiosidade nem dar conta das especificidades, da diversidade e das lutas pela paz que se constroem nos territórios. Luiz Gama, Chico Mendes, Margarida Alves, Dorothy Stang, Paulo Freire, Marielle Franco e tantas outras pessoas seguem sendo exemplos de figuras que, para muitos, ainda não são reconhecidas como pacifistas, mas apenas como insurgentes.
Reivindicar a luta por educação, defesa dos territórios, proteção social, trabalho digno, acesso à saúde e bem viver como aspectos fundamentais da construção da paz é algo que todos nós podemos fazer. A paz é um direito universal que não é imposto de cima para baixo. Ela é construída principalmente pelas bases que enfrentam as causas estruturais das violências, como a pobreza, a exclusão, a injustiça e a dominação.
Artigo escrito por Anaís Cordeiro, nascida e criada na Amazônia acreana, é mestre em Estudos Internacionais para a Paz pela Universidade Soka e bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal do Acre (UFAC). Pesquisadora e educadora na área de Estudos da Paz. Atua como gestora de Projetos do Comitê Chico Mendes e Coordenadora de Campanhas e Ações do Comitê COP30.


